domingo, 22 de outubro de 2017

Árvore da Cinefilia #22- Carlos Nogueira


Foi no tempo em que os animais falavam e a algazarra era grande, porque tudo isto se passou em África. Lá em casa éramos três, pessoas quero dizer, e a coisa era muito complicada. No que às raízes da minha cinefilia diz respeito, porque de resto éramos uma família tranquila e feliz.

Os meus pais eram muito cinéfilos, embora não o soubessem porque na altura não havia essa palavra. Nem havia televisão, vejam só. Os filmes que viam eram filmes com, não eram filmes de. Filmes com a Sophia Loren, com a Elizabeth Taylor, com o Anthony Quinn, que toda a gente pensava que era grego. Eu também era muito cinéfilo, à minha maneira: acho que as minhas primeiras experiências tinham sido mesmo em casa, com a máquina Super8 que o meu pai tinha comprado numa viagem à metrópole e os filmes que se projectavam em ocasiões especiais como aniversários ou domingos à tarde eram sempre os mesmos, Charlot, Bucha e Estica, desenhos animados da Disney e os inevitáveis home movies, que não se chamavam home movies mas sim “aquele filme das férias”. A ida ao cinema foi sempre um acontecimento celebrado com entusiasmo e com o tempo passou a ser cada vez mais frequente. Não consigo lembrar-me muito bem dessas experiências iniciais: sei que a Marisol foi uma referência, que acompanhei com assiduidade a breve carreira de Mark Lester, o actor de Oliver!, e que havia de vez em quando umas histórias edificantes de animais como Uma Leoa Chamada Elsa. Não era, porém, fácil irmos todos juntos ao cinema.

A minha mãe, mulher de beleza altiva e muito carácter, que era o mesmo que dizer de nariz empinado e nada disposta a contemporizar, gostava do passo elegante de Gregory Peck, do rosto exótico de Omar Sharif e, acima de tudo, da voz sensual de James Mason (os adjectivos são meus, claro; ela dizia apenas que tinham muita classe). Odiava comédias, bonecada e operetas. Só uma vez a ouvi falar com apreço de um musical, a Escola de Sereias, mas eu acho que era porque lhe diziam que era parecida com a Esther Williams. Quando eu era criança e ia ao cinema com o meu pai, ela escusava-se sempre com umas actividades misteriosas do género cabeleireiro ou chás. É verdade que quando nos encontrávamos depois do filme, a banana costumava luzir a laca ainda fresca e havia um cheiro agradável a mil-folhas. Não me lembro nada dela ao meu lado a ver a Mary Poppins

Do meu pai, sim. Era um homem charmoso, bem disposto e de sensibilidade à flor da pele, que é como quem diz de uma pieguice desavergonhada; ria até às lágrimas com o Charlot, os filmes do Cantinflas, o Sr. Hulot, a série “Com Jeito Vai...” e venerava, acima de tudo, Walt Disney. Andava com a minha mãe nas palminhas e olhava para ela com aquela expressão abobalhada dos homens que amam toda a vida a mesma mulher. Às vezes, para a convencer a ver alguns filmes com o Vittorio Gassman ou o Jack Lemmon, dizia que eram “alta comédia”, categoria a que nem eu tinha acesso. Em vão; ligeirinho lembro-me que viram juntos A Flor do Cacto, graças à Ingrid Bergman, para quem a minha mãe sempre abriu uma excepção; de resto, ela é que escolhia e os filmes tinham de ter um tema sério (Adivinha Quem Vem Jantar alimentou horas de discussão animada nesses anos mornos de final de regime) ou um poder de sedução irresistível (A Piscina, onde a grande questão era saber se Romy e Alain ainda se amavam). O meu pai era muito sensível ao sofrimento das crianças: falava-me com entusiasmo dum filme muito antigo, os Ladrões de Bicicletas, e nunca me esquecerei da situação embaraçosa que vivi durante a projecção do Incompreendido, onde soluçou do princípio ao fim. A partir dessa altura acho que passei mesmo a exigir ir ao cinema sozinho. 

A viragem da infância para a adolescência foi difícil para a minha cinefilia incipiente. Eu sempre tinha sido uma criança precoce, o que significa, como todos sabemos, que era um menino mimado insuportável, com a mania, como se dizia. A mania que era diferente, a mania que era superior, a mania que era único. Nessa fase crucial do crescimento, que na altura era designada por idade da gaveta (embora lá em casa essa idade parecesse ser intemporal, pois a expressão começou a ser-me aplicada muito cedo e acho que a última vez que a ouvi já andava na faculdade), eu levei algum tempo a encontrar-me. Os desenhos animados já não me diziam muito, o Louis de Funès mal me arrancava um sorriso, as coboiadas que os meus colegas começavam a ver pareciam-me todas uns barretes, as love stories que entusiasmavam minhas primas eram umas pachovadas intermináveis. A coisa estava difícil. 

Havia já algum tempo que os livros estavam a ser um melhor alimento para a minha imaginação. Os Cinco, a revista Tintim, Júlio Verne. Sobretudo Júlio (assim mesmo) Verne. Lia tudo o que podia: Cinco Semanas em Balão, A Ilha Misteriosa, Da Terra à Lua, Viagem ao Centro da Terra; os livros de Júlio Verne pareciam não ter fim, as suas aventuras, as suas invenções e as suas personagens ressoavam na minha imaginação como acho que nunca mais personagens de ficção o voltaram a fazer.

Um dia, ao passar em frente do cinema Nacional vindo da livraria Clássica, onde tinha ido ver se já havia a última remessa da Tintim (a revista era semanal mas lá chegava por atacado com uma periodicidade arbitrária), o meu olhar foi atraído por cartazes que me fizeram imediatamente entrar em transe pois anunciavam a reposição (deviam ser férias) de um filme baseado num livro de Júlio Verne que devorara havia pouco tempo: Vinte Mil Léguas Submarinas. Por entre as cores carregadas das fotografias, surgiam imagens daquilo que poderia ser o famoso Nautilus, o misterioso submarino do sinistro Capitão Nemo, uns animais marinhos de múltiplos tentáculos e consistência duvidosa, o loiro Kirk Douglas de t-shirt (na época chamavam-se camisolas interiores) à pirata que eu já conhecia porque tinha uma covinha no queixo como o meu pai e um tipo bem apessoado de barba vestido de roupão tocando um órgão monumental. Nem tudo compreendia, nem tudo correspondia às imagens que eu havia construído a partir do livro, mas regressei a casa numa grande excitação, metendo os pés pelos tentáculos, perguntando ao meu pai se o órgão da igreja podia ser tocado debaixo de água e exigindo à minha mãe que me comprasse uma camisola com riscas de pirata.


Nessa noite reli o livro (era o tempo em que os animais falavam, já o disse), na manhã seguinte não dei muita atenção aos submarinos afundados pelo gigante Adamastor de que falava o setor de história e, à tarde, arranjei maneira de voltar ao átrio do cinema (nessa altura chamava-se foyer) para estudar melhor os cartazes. Olhando com mais atenção, subitamente algumas letras formaram palavras mágicas: livro de Júlio Verne + produção de Walt Disney + interpretação de James Mason. Três nomes bastaram para que um plano maquiavélico de reconciliação familiar, pelo menos no que no domínio do cinema dizia respeito, começasse a urdir-se na minha cabecita adolescente precoce. Três nomes que iriam reunir três familiares desavindos. Meu dito, meu feito: o meu pai aderiu logo à ideia, entusiasmado, a minha mãe hesitou um bocadinho mas depois condescendeu generosamente e eu, nesse domingo, levantei-me muito cedo para ser o primeiro a comprar bilhetes porque a minha mãe só ia se fôssemos para o balcão. 

O filme não desiludiu. Ainda dei uns saltos na cadeira, mas achei que o filme estava muito bem feito, tinha uns efeitos especiais notáveis, e sentenciei que era melhor do que o livro. O meu pai continuou a achar que o livro era o livro, mas a sua admiração por Disney não saiu beliscada. A minha mãe fez comentários enternecidos à covinha do Kirk, bocejou de vez em quando e lamentou que o James Mason entrasse pouco. A mim, as imagens do Nautilus continuaram a obcecar-me durante meses. Mas, mais do que isso, as minhas convicções sobre as fronteiras entre o bem o mal saíram abaladas. Afinal, nem sempre aquilo que parecia era. O mundo começou a complicar-se.

Acho que foi a última vez que fomos todos juntos ao cinema. Em breve eu veria The Last Picture Show do Peter Bogdanovich, que passei a datar como o opus #1 da minha cinefilia. O meu pai nunca aderiu muito ao Woody Allen e a minha mãe sempre achou que o Michael Caine carecia da classe dos actores de antigamente.

20,000 Leagues Under the Sea foi dirigido por Richard Fleischer em 1954, imediatamente antes da sua obra-prima, Violent Saturday (Sábado Trágico, 1955). Recentemente, agora já não só com o coração, mas com a razão a apoiar, pude confirmar que é um excelente filme de aventuras e que resistiu brilhantemente à passagem do tempo. 

Carlos Nogueira *

* O Carlos Nogueira tem um percurso variado que, nos últimos anos, se concentrou na cinefilia. Entre as suas actividades contam-se a edição de O Cinéfilo Invertebrado, blog dedicado à cobertura de alguns dos principais festivais internacionais de cinema, a colaboração no suplemento Ípsilon do jornal Público, a programação (Próximo Futuro — Gulbenkian; IndieLisboa) e a curadoria (Mostra de Cinemas Ibero-americanos, que encerrará as comemorações da Lisboa 2017 — Capital Ibero-americana da Cultura).

Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.

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terça-feira, 3 de outubro de 2017

O Futebol (2015) de Sergio Oksman


Já passou algum tempo desde que vi este belo filme de Sergio Oksman mas tenho bem presente este plano: de um lado, um hospital de São Paulo onde o pai do realizador está internado, do outro - palavras para quê? - é o "charme do paraíso", um boteco onde se celebra mais um golo do Brasil, na copa que organizavam em 2014. Esta organização, aparentemente estanque, da dor e do êxtase é parte da premissa de O Futebol. Ela é uma docu-ficção que é filha de um filão conhecido no documentarismo, o de procurar através da feitura de um filme, reavivar, reviver, recuperar uma relação familiar moribunda. No caso, o Sergio não via o pai há muitos anos. Emigrado para Espanha, decidiu regressar ao Brasil e ver com o pai todos os jogos do campeonato. Passar um tempo junto, pois nunca houve tempo, e fazer desse tempo uma partilha em filme. E começa a rolar a bola, o desporto-rei está nos ecrãs que não nos mostram os jogos, e nas conversas de automóvel, de bar, no escritório onde o pai Simão trabalha. Oksman não filma o futebol pois este é um jogo de equipa e um dispositivo cinematográfico e emocional para um outro desafio, "jogado" um para um: a recuperação de uma certa intimidade entre um pai e um filho separados.

Se as ruas estão cheias de energia desportiva, depois há a chuva, os espaços aprisionantes do carro, os longos silêncios ou os desvios dolorosas das coisas que não se querem recordar. Não é só o futebol que é um jogo de estratégia. Aos poucos vamos percebendo do contraste entre a festa de todos, e o tempo dolente entre pai e filho, um filme onde as elipses se sentem dolorosas porque irrecuperáveis. O filho está na disposição de tudo fazer para aproveitar o tempo perdido - a sua presença parece o de Nanni Moretti actor, na sua versão mais circunspecta, ou seja, na dos seus "filmes de família" -, já o pai cede um pouco aos caprichos da idade. Mas este jogo de composição entre o ordinário e o extraordinário, entre o documento e a construção ficcional, sofre um forte abalo. Simão morre subitamente durante a rodagem e Oksman não cede à emoção. Antes ficamos com um filme que se vai progressivamente despindo de palavras, que mantém até à última o suspense do "resultado" das suas personagens. Mas o mais extraordinário, a maior lição que a realidade dá após vermos este Futebol, é que as duas metades deste plano que acima vemos se vão unir: morte e derrota humilhante (os tais 7-1 da Alemanha), tudo num só movimento do acaso (uma mise-en-scène verdadeiramente trágica), tudo num só fechar de pano teatral, ficcional.

domingo, 1 de outubro de 2017

Árvore da Cinefilia #21- Gonçalo Soares

Escadinha

Imagino que teria uns quatro anos, porque não me lembro da existência da minha irmã nesta altura (ela nasceu quando eu tinha cinco). Lembro-me do móvel do vídeo e televisão ocupar o espaço no nosso quarto, onde também me lembro da cama dela. Espaço este em frente à parede oposta à minha cama, ao lado desta, uma escrivaninha que nunca usava. Em frente, debaixo da janela, uma arca de madeira onde encontrava sempre um peluche, um urso genérico de pelo seco e expressão estragada. Assustava-me. Por isso voltava sempre a colocá-lo dentro da arca. Acho que a minha mãe nunca percebeu como o odiava, porque voltava sempre a tirá-lo para o deixar em cima da arca. Julgo que estas especulações são factos. Os meus perdões se estiver a inventar.



Era um miúdo acabado de chegar a Torres Vedras, com dificuldade em fazer sestas e amigos no infantário e uma espécie de sotaque nortenho apanhado no ano que tinha passado em Bragança. O meu pai deslocava-se de ano a ano por motivos de trabalho. Em Torres o escritório dele era mesmo ao lado do infantário, por isso passava lá os fins de tarde à espera que ele acabasse o que tinha a fazer. Quando saíamos, passávamos sempre no mesmo sítio: o clube de vídeo, de portas abertas até às 8 da noite no mesmo edifício do escritório dele. Era um sítio estranho. Levar para casa o que queria ver uma vez por dia? Que luxo.

Como é óbvio, o meu pai escolhia sempre as cassetes com pessoas na capa, as das filas do meio, mas eu dirigia-me sempre à fila mais abaixo. A fila única dos “desenhos-animados”. Trouxe para casa vezes infinitas as mesmas cassetes, com os mesmos episódios das mesmas coisas. Na altura não haviam colectâneas integrais de séries, portanto era melhor do que esperar para ver as coisas na TV. Numa dessas vezes escolhi uma cassete das Tartarugas Ninja que já me tinha passado pelas mãos várias vezes. Ao chegar a casa devo-me ter apressado a retirá-la da caixa para a meter no vídeo. Mas notei imediatamente numa diferença. O autocolante colado à face superior da cassete deveria ser colorido. Deveria ser algo como amarelo ou azul, não necessariamente temático do esquema de cores de TMNT, mas deveria ser colorido. Não era. Em vez disso, era um branco, acastanhado pela sujidade, com letras negras numa font nada amigável. Estúpido como era, foi necessário colocar a cassete no vídeo e ver os trailers em live-action para ter a certeza de que aquilo não tinha tartarugas, nem ninjas. Carreguei eject e dirigi-me à minha mãe de cassete na mão.

“Mãe, que é isto?” (eu não sabia ler).
“Hmm...” (a minha mãe agarrou na cassete).
“Diz aqui: O BONECO DIABÓLICO.”
A minha mãe disse-me que se deviam ter enganado no clube de vídeo.
“Não vejas isto. Amanhã vamos trocar.”

Pedi-lhe para ficar com a cassete na mesma. Para a pôr na caixa.

Pela primeira vez senti aquele sentimento que se associa a um objecto proibido. O mesmo que voltaria a sentir alguns anos mais tarde quando na posse de gelado antes da hora de jantar, ou de páginas rasgadas de uma revista porno. Certamente não iria ser naquela noite que iria enfrentar o desmame do meu vício por vhs’s.

“Não pode ser assim tão mau. Uma coisa de adultos.” Inseri a cassete, prometendo-me a mim mesmo que parava se corresse mal. 

O filme começou. Lembro-me perfeitamente da sequência do genérico inicial. Palavras que apareciam e desapareciam sobre imagens de um pedaço de plástico derretido coberto do que tinha de ser sangue. Uma fábrica inactiva onde as máquinas ganhavam vida e faziam com que o plástico e o sangue adquirissem forma liquida para se misturar com mais plástico, de modo a criar um padrão em espiral que depois era moldado numa série de planos pormenor para criar um boneco de cara infantil. 

Link aqui, faça favor (nota: a realidade é um pouco diferente da descrição):

Depois disso sei que parei quando o “boneco diabólico” apareceu na cena seguinte. Tinha voz de adulto. Matou alguém. Era demasiado para mim. Gritei. Saltei para cima do eject. Gritei outra vez. A minha mãe entrou no quarto. A festa toda.

As noites seguintes não foram agradáveis para os meus pais. Infelizmente, obriguei a minha mãe a dormir comigo durante algumas noites. “Infelizmente” porque ela acabou por se fartar. Na noite em que isso aconteceu acordei no escuro e senti que a minha mãe não estava lá. Mas eu estava abraçado a alguém. Querendo controlar-me, senti devagar quem estava ali deitado. Pelo seco. O peluche que voltava sempre a sair do baú. Não foi fixe.

Resta dizer que até aparecer uma Mega-Drive na minha vida comecei a usar muito mais a escrivaninha.

Anos depois, em Loures, olhava com respeito e receio para a enorme secção de terror do clube de vídeo do meu bairro. Lá no meio estava o "Boneco Diabólico". Devagar, deixei de levar sempre as mesmas cassetes, com os mesmos episódios das mesmas coisas e comecei a ver filmes-filmes. Comecei a fazer uma escadinha que ainda não acabou e depois me levou aos filmes de terror e de volta ao "Boneco Diabólico", assim nomeado em Portugal apesar do título original ser Child’s Play 3. The more you know. 

Vi-o com a minha irmã. Ela não teve medo.

Gonçalo Soares *

*"Gonçalo Castelo Soares é realizador sem prémios e aprendiz do skillset necessário para viver a vida satisfeita. Gosta de andar de um lado para o outro e de achar que tem sempre razão. Obviamente não tem sempre razão.”

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

domingo, 24 de setembro de 2017

Árvore da Cinefilia #20- Carlos Pereira



Dentro desse núcleo dos filmes que amamos, teremos sempre os filmes que são pontos de viragem e de não retorno. Como se vivêssemos numa casa e descobríssemos portas - antes fechadas, impenetráveis, invisíveis aos nossos olhos - que nos dão acesso a novas divisões e dimensões: passagens para outra percepção das possibilidades do cinema. Talvez sejam estes os filmes da nossa vida, os que nos estruturam o olhar, contendo e expressando a nossa vida interior, os nossos desejos, medos e contradições.  

Tinha três anos quando vi numa sala de cinema o “Bambi”, inscrito na minha linha biográfica como o meu primeiro filme. Não tenho qualquer memória concreta do momento, mas é curioso que a consciência da morte seja, ainda hoje, o tema que mais me move. Filme sobre a passagem do tempo, sobre o processo de luto, sobre a amizade e o amor, “Bambi” parece abranger, nos seus setenta minutos, a fenomenologia de viver no mundo.  

Aos dezassete anos, após ver o “Aurora” do Murnau, desisti da ideia de ser advogado para concorrer à escola de cinema. Lembro-me de ficar tão siderado que percebi que não queria apenas passar a vida a ver filmes, mas também fazê-los. O caminho do cinema é violento, tão construtivo como auto-destrutivo, mas soube desde o primeiro dia de aulas que tinha encontrado o meu lugar. 

Meses depois de ter entrado na escola de cinema, durante uma sessão na Cinemateca, lembro-me de um plano do “The Shop Around the Corner” do Lubitsch que me deixou sem coordenadas. Foi talvez o primeiro plano que me fez pensar no próprio conceito de plano. Percebi que uma imagem podia conter simultaneamente uma lógica estética, intelectual e emocional. Apreendi que havia ordens, sentidos e efeitos dentro da complexa estrutura do cinema. Senti que um plano era uma ação que arrasta consigo ecos e sonhos, jogando com esse momento onde o passado e o futuro colidem. Um plano onde a mão de Klara Novak (Margaret Sullavan) procura, em vão, uma carta numa caixa de correio. Uma mão que abarcava toda a fome afetiva, toda a vontade de encontrar e de ser encontrado, num momento a que se seguiria a desilusão e o vazio. A vida a acontecer, portanto. 

Cada ida à sala de cinema é, será sempre, uma mão à procura de uma possibilidade. 

Carlos Pereira*

*Carlos Pereira é realizador e programador de cinema, trabalhando atualmente como membro do comité de seleção para a Berlinale (Generation).

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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Coelho Mau - Carlos Conceição


É o primeiro plano de Coelho Mau (2017) e já estamos em viagem. Seguimos uma mota e a câmara passa, de forma elegante, das rodas da viatura e da estrada alcatroada até aos seus dois jovens ocupantes - João Arrais, presença obrigatória do imaginário de Carlos Conceição, e Julia Palha. Ele tem um chapéu de orelhas de coelho, ela uma máscara de oxigénio. Adereços de juventude ou necessidades de idade adulta? O filme, claro, não dará resposta evidente, pois é nesse "entre" que habita. As oposições criativas entre a carne "culpada" e a alma inocente (penso precisamente em Carne de 2010), entre a turbina da juventude e a desaceleração da velhice [o mesmo Arrais e Isabel Ruth em Versailles (2013)], e finalmente, entre o moralismo dos contos de fadas e o fetichismo dos contos de fodas, são tudo terrenos onde Carlos Conceição quer plantar as sementes da sua discórdia cinematográfica.

A atitude não parece ser uma curiosidade por ver o "sangue" que resulta do embate destas realidades tradicionalmente separadas. Trata-se de fazer ver que, como aqui neste seu último filme, não há uma verdadeira separação entre o coelho e o lobo, entre o maravilhoso e o perverso, entre o desejo sexual e o acto de abnegado sacrifício. Por isso é tão importante aquele momento em que a personagem do João, depois de entregar a sua irmã "às feras", cá em baixo junta à sua casa na árvore, imita um mocho e é do bosque que lhe vem a reposta: um uivo de lobo. Ao contrário do que acontece algumas vezes no formato curto - onde cada plano, pelo seu apuro formal, poderia ser em si mesmo uma curta-metragem - em Coelho Mau as personagens vêem o seu universo expandido pela noite que as habita e que aos seus problemas lhes responde. Estamos assim na arte de tornar o curto-longo, na capacidade de sugerir pelos indícios um mundo mais aberto, onde ao espectador "desamparado" lhe vem, simultaneamente, a inocência demencial de James Stewart e o seu amigo em Harvey (1950), a bizarria cool que foi o filme de Richard Kelly em 2001, Donnie Darko, e claro, o monstro nocturno de látex, de O Fantasma (2000), de João Pedro Rodrigues, realizador que é, por cá, o parente mais natural para o seu cinema.